Hoje, quarta-feira, 20 de junho de 2018

REFLEXÕES > CYBER AMOR

E assim nascem os amores do nosso tempo...


Cyber Amor


— oi... pode falar?

— sim... pq nao?

— qual o seu nome?

— e o seu?

— em q cidade esta?

— puxa, pena q eh longe...

— isso n importa...

— ah q bom!

— tem namorado?

— não, e vc?

 (...)

 

E assim nascem os amores desse tempo...

Geridos e inspirados por teclas e letras.  Sem cheiro,  Sem sabor,  construídos sobre projeções de desejos inconscientes que ocupam o lugar privilegiado do  encantamento que surge naturalmente,  por um olhar, um sorriso cativante... um toque.... ou mesmo a essência de um perfume ou qualquer magnetismo procedente de nossos sentidos.
A tecla ganhou o lugar do toque; a letra, o da emoção; os sorrisos acontecem plasticamente emoldurados por telas iluminadas.

Há até quem prometa o famoso "seremos felizes para sempre" sem nunca antes ter visto pessoalmente quem recebe a promessa... E jura não estar fingindo!
Há aqueles que dizem nunca ter amado como estão amando o enamorado que apareceu de repente — num chat,  escondido por trás de um "nick falso",  ou um "perfil fake" apenas porque teclou de um "jeitinho especial", ou seja, o jeitinho da carência da alma de quem leu o "carinho-letras".

Tem gente que briga porque entendeu que a vírgula era um ponto reticente...
Há também quem guarde mágoa, pois o "amigo" sumiu rapidamente de sua frente sem escrever um "ausente", pois se importa somente com a vida na tela, ignorando que a vida real é atrás dela — a tela!

Há ainda os observadores de plantão, que se alimentam da investigação, dando conta da vida alheia, sem se dar conta que a sua própria vida passa longe da realidade.
Outros perderam o prazer pelo sexo real. Então a pele, o toque, o calor,  passaram a ser irrelevantes. Viciam-se e adoecem absortos em fantasias e mais fantasias que acabam sempre na mesma: ausência e frustração. Enquanto isso, suas esposas dormem sós, à espera daquele que agora ama outra, a "perfeita"... criada conforme a imagem e semelhança de sua imaginação na tela de um monitor.

Meninas iludidas sentem-se princesas... Mas seus príncipes não chegam mais em cavalos, como nos contos de fadas. Chegam montados em @@ e mensagens virtuais.
Pessoas viram personas, e agora podem ser quem quiserem, ou o que desejam dizer que são. Ludibriam passando-se por "objeto do sonho esperado" de quem está do outro lado... enquanto adoecem na própria mentira.

Alguns até pesquisam gostos e desejos para poderem conquistar mais rapidamente o objeto de seu desejo!

Não é à toa que assim como iniciam as paixões virtuais de forma arrebatadora, também acabam da mesma forma. Não têm a chance de tornarem-se sólidas; não têm consistência, pois nascem da imaginação de quem as constrói,  e um ponto no lugar errado e na hora errada muda o seu destino, pois a imagem perfeita criada desfaz-se como uma nuvem passageira.
Por outro lado, acontecem as históris que viram realidade e se concretizam, levando até mesmo a um compromisso duradouro... Mas são raros os casos — ainda são minoria considerando-se a imensa quantidade de envolvimentos virtuais que acontecem a cada dia. Para esta possibilidade é necessária uma disposição de alma que carregue sinceridade, verdade e fuja das projeções. Mas isto não é coisa tão fácil de acontecer com as duas partes envolvidas ao mesmo tempo.

Os casos de fobia social, depressão, estima baixa ou falta de amor próprio,  e toda sorte de doenças psicossomáticas só aumentam diante desta realidade.
E junto com esta imensa variedade de "nóias",  aumentam  também as angústias de quem tenta ser quem não é,  e se mantém assim para sustentar a fantasia criada, ou ainda, como evitação da quebra de paradigmas que são construídos, tendo por base o "falso moralismo".

Por entre toda essa realidade emocional-virtual, o amor verdadeiro e concreto se dissolve. Perde espaço para a fantasia que não gera amor consistente, pois parte das construções egoístas de uma relidade de total e concreto esfriamento de amor na terra.
É certo que a Internet trouxe e continua a trazer a cada dia milhares de benefícios para quem a utiliza. O mundo ficou menor: cabe numa tela. Distâncias vencem as barreiras reais na virtualidade. As amizades tornam-se mais presentes e compartilhadoras... E poderíamos enumerar aqui centenas de outros benefícios práticos que a tecnologia agencia em nossas vidas.

Mas e o amor?

O amor construído pelo convívio, que o faz amadurecer...

E o magnetismo do olhar? ...O cheiro da pele?... As sintonias concretas?

Penso que devemos considerar para onde caminhamos, e a despeito de usufruirmos os benefícios da vida cibernética, saibamos proteger as emoções e o coração das armadilhas da virtualidade, priorizando sempre os encontros que se dão pelos sentidos reais, e, caso eles venham a se dar primeiramente na virtualidade, que existam atitudes reais  desejo de mostrar-se com verdade, e, antes que as projeções aumentem demasiadamente como costumam pela via da vietualidade, haja o compromisso do encontro, e assim haverá oportunidade de confirmar as sensações na realidade.


É só o amor que conhece o que é verdade!

Que ele nunca seja substituído da vida real por uma virtualidade irreal que a cada dia facilita ilusões e construções produzidas pela imaginação.


Vale a pena pensar sobre isso!

 

 
Ana D´Araújo
Psicoterapeuta Clínica

 

Julho/07
 

 

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Ana D´Araújo

Psicoterapia | Ana D´Araújo 2011
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